Os dados apreentados nesse texto são parte do que encontrei na minha tese de mestrado, com tema: " Avaliação do estado metabólico e nutricional de indivíduos vegetarianos e onívoros".
Todos os dados sobre a escolha dos participantes, podem ser vistos no texto sobre avaliação ligado a doenças cardiovasculares (nessa mesma seção, sobre avaliação nutrológica).
Nesse artigo, darei continuidade ao tema falando sobre os dados referentes ao metabolismo de carboidratos.
O açúcar no sangue
Existem carboidratos de diversos tipos, sendo a glicose um dos seus representantes.
Quando comemos qualquer alimento natural que contenha carboidrato, estamos ingerindo glicose (muitas vezes acompanhada de outros carboidratos, como a frutose e lactose). Portanto, comemos glicose ao ingerir o açúcar branco, mascavo, demerara, mas também o arroz, milho, trigo, feijões, frutas... O carboidrato que todos eles contêm irá para o sangue e o açúcar no sangue se eleva.
Usamos popularmente o termo “açúcar no sangue”, mas o correto é falar glicose no sangue, ou glicemia. Será esse o termo que utilizarei até o final do texto. Memorize!
Por que deve haver açúcar no sangue?
Podemos considerar que os vasos sanguíneos são as rodovias que transportam diversos produtos para cima e para baixo do nosso corpo. Assim, o sangue vai levar glicose (e outros componentes) para os diversos órgãos para alimentá-los, pois a glicose é um combustível importante para o funcionamento do organismo.
O cérebro, por exemplo, não pode ficar sem glicose. Se a glicose no sangue (glicemia) fica baixa a ponto de comprometer o fornecimento ao cérebro, a pessoa pode entrar em coma.
Se a glicemia sobe...
A glicose é importantíssima para o nosso organismo, mas seu excesso é nocivo. Quando elevada no sangue por muito tempo ocorrem lesões em várias células do corpo, como as da retina (nos olhos), dos nervos, dos rins... O diabético mal controlado tem uma chance maior de apresentar perda da visão e do funcionamento dos rins em algumas condições específicas, pois nessa doença, o maior desafio é manter a glicemia em valores adequados.
O fato é que a glicemia precisa ser bem controlada no sangue, e quem a controla quando ela aumenta, é um hormônio chamado insulina.
A insulina é produzida pelo pâncreas sempre que a glicemia é elevada. Após lançada ao sangue, a insulina chega nas células do corpo e pede para que elas deixem a glicose entrar, pois é dentro das células que a glicose é utilizada.
| Assim, a regra é: a glicemia aumenta, a insulina aumenta. |
Resposta das células à ação da insulina
Parece bem simples: a glicose aumenta no sangue, o pâncreas produz insulina, as células do corpo atendem ao pedido da insulina deixando a glicose entrar nelas.
Mas nem sempre isso ocorre de forma tão simples. Há situações onde as células não respeitam a insulina e não deixam a glicose entrar facilmente.
Isso ocorre freqüentemente em obesos, pessoas com Síndrome dos Ovários Policísticos, dentre outros problemas de saúde. Nessa situação, ocorre a maior necessidade de produção de insulina para ajustar a glicemia.
| Assim, a glicemia fica normal, mas às custas de maior produção de insulina. Chamamos essa condição de resistência à insulina (ou resistência periférica à ação da insulina). |
Pessoas com maior predisposição podem ter perda do funcionamento do pâncreas precocemente, desenvolvendo diabetes. Na resistência à insulina, é como se o pâncreas estivesse “suando” para dar conta de executar sua função, e por conta disso pede a aposentadoria mais cedo.
Os dados que encontrei
Os pacientes avaliados na minha tese de mestrado tiveram os níveis de glicemia de jejum e insulina no sangue (insulinemia) dosados e comparados.
Lembre-se de que eles têm uma relação de peso com altura adequados e prática equivalente de atividade física, fatores que poderiam trazer alterações nesses valores.
| Os exames mostraram claramente que o grupo vegetariano apresenta glicemia de jejum equivalente ao grupo não-vegetariano, mas tem menores níveis de insulina circulante no sangue. |
Isso significa que o vegetariano consegue controlar a glicemia (lembre-se que ela é o açúcar no sangue) com menos insulina, ou seja, com menos esforço e, portanto, com menos necessidade de trabalho do pâncreas.
| Podemos dizer que o vegetariano tem maior sensibilidade à ação da insulina do que as pessoas não-vegetarianas. |
Esse resultado sugere maior proteção do vegetariano para o desenvolvimento de diabetes.
O que os estudos internacionais mostram?
Os estudos publicados demonstram dados equivalentes aos que encontrei: os vegetarianos são mais sensíveis à ação da insulina produzida.
Há inclusive estudos que compararam o efeito da dieta vegetariana estrita e da não-vegetariana (desenhada pela Associação de Diabetes Norte Americana) bem planejadas aplicadas em pessoas diabéticas. Os resultados foram positivos para os dois grupos, mas o que seguiu a dieta vegetariana teve praticamente o dobro da redução de peso, do “colesterol ruim” (LDL) e do uso de medicamentos quando comparada à dieta não-vegetariana.
Há estudos que demonstram que as populações não-vegetarianas têm o dobro da prevalência de diabetes do que a vegetariana.
| A dieta vegetariana é efetiva para a prevenção e tratamento de diabetes. |
Por que isso ocorre?
Há teorias possíveis associadas a vários fatores ligados ao desenvolvimento e controle do diabetes.
Um dos fatores é o maior consumo de fibras, comum de ser observado nos vegetarianos. As fibras podem auxiliar na absorção mais lenta do carboidrato da dieta que consumimos, mas também é importante para que o intestino produza um hormônio chamado GLP-1, responsável por auxiliar o controle glicêmico. Consumir mais ou menos fibras não tem relação direta com ser ou não vegetariano, pois depende das escolhas alimentares, mas os vegetarianos costuma ter maior ingestão.
O tipo de gordura ingerida também pode influenciar no controle da glicemia. As gorduras provenientes do reino vegetal tendem a ser mais adequadas para o controle da glicemia do que a de origem animal.
Um ponto muito interessante é com relação ao carboidrato. É comum pensarmos que se comermos mais carboidratos teremos maior glicemia. No entanto essa correlação não pode ser feita dessa forma, especialmente quando o carboidrato é proveniente de alimentos integrais. Na maioria dos estudos que existem verificamos que os vegetarianos ingerem mais carboidrato do que os não-vegetarianos. Há estudos, inclusive, onde o planejamento de carboidratos na dieta vegetariana foi superior ao que é preconizado em termos de ingestão de carboidratos e, mesmo assim, os vegetarianos mostraram melhor controle de glicemia e menor risco para diabetes.
Como posso evitar o desenvolvimento de diabetes?
As evidências nos estudos do mundo inteiro são claras em demonstrar que a adoção da dieta vegetariana (inclusive ovolactovegetariana) é uma escolha bem acertada.
Manter o peso adequado com relação à altura é importantíssimo, assim como não deixar aumentar a gordura abdominal. Conseqüentemente, a escolha dos alimentos influencia esse resultado, devendo ser evitado tudo o que em excesso traz aumento de peso: doces, frituras, alimentos refinados...
Mantenha horários regulares e lanches entre as refeições principais, pois essa forma de distribuição alimentar sobrecarrega menos o organismo, do que fazer apenas 3 grandes refeições.
A prática regular de atividades físicas auxilia muito o controle da glicemia.
Trabalhe a redução do estresse, pois ele produz cortisol, um hormônio que aumenta a glicemia, dentre outros efeitos.
Utilize alimentos integrais, de preferência em grãos. Não é só o macarrão e pão integral, mas principalmente arroz integral, milho da espiga, trigo em grão...
Os feijões são bons alimentos para prevenção e controle do diabetes.
Mantenha boa ingestão de frutas e verduras.
Quem tem familiares com diabetes ou tem Síndrome de Ovários Policísticos, deve ficar ainda mais atento a essas recomendações.

