| Dúvidas sobre a B12 - parte 1 |
| 07-Abr-2009 | |
|
Estou cheio de dúvidas sobre a vitamina B12 ... Esse assunto não é polêmico, mas tenho recebido diversas dúvidas por e-mail e dos pacientes que atendo devido a dados desencontrados, tanto de profissionais de saúde, quanto de pessoas adeptas ao vegetarianismo ligadas a filosofias e à espiritualidade. Assim, conversaremos sobre alguns questionamentos pertinentes à ela nesse texto.
Apenas para relembrar: vitamina B12 só é encontrada em carnes, leite, queijos, ovos e suplementos. Os maiores estudos científicos com populações vegetarianas começaram a ser publicados na década de 70. Esses estudos começaram a demonstrar que os vegetarianos tinham baixa ingestão de B12 (no caso dos ovolactovegetarianos) ou nula (no caso dos veganos).
Provavelmente, e historicamente não. Não vou entrar em aspectos religiosos da existência humana, mas apenas em questões históricas. Há mais de 3 milhões de anos existiu um hominídeo que chamamos Paranthropus bosei . Segundo as suas características fósseis eram vegetarianos. Esse hominídeo não era exatamente como nós, e se alimentavam de partes dos vegetais que nós hoje não conseguimos. Eles foram dizimados na era das glaciações, pois houve escassez de alimentos vegetais. Todos os demais hominídeos, incluindo os nossos descentes, eram onívoros. Eles comiam carne e, no caso de muitos deles, não era pouca. A idéia do ser humano antigo numa vida completamente harmônica com a natureza não encontra respaldo em inúmeras pesquisas. A vida era bem selvagem (talvez não menos, mas uma forma diferente da que é hoje). A história da medicina e nutrição mostra claramente as inúmeras carências nutricionais que sempre existiram, mas que não eram diagnosticadas por falta de conhecimento na época. As descobertas vieram aos poucos, como é de se esperar.
Os nossos remotos ancestrais conseguiam a B12 porque comiam carne mesmo. Se precisamos suplementar a vitamina B12 quer dizer que a dieta vegetariana não é adequada ao ser humano? Não, não quer dizer isso. Em diversos ciclos da vida e condições orgânicas pode ser necessário o uso de suplementos. Isso pode ocorrer por baixa ingestão dos alimentos ou nutrientes, por dificuldade de retirarmos o nutriente do alimento ou por problemas no organismo que fazem com que a sua absorção, utilização ou perda seja comprometida. Todas as descrições que farei agora são para as pessoas onívoras. Como exemplo, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que todas as crianças, dos 6 meses aos 2 anos de idade, recebam suplementação de ferro, frente ao elevado índice de anemia nesse período. É estimado que metade das crianças com menos de 5 anos e 1/3 das gestantes no Brasil tenham carência de ferro. A suplementação com ácido fólico é feita para mulheres que querem engravidar. Diversos obstetras prescrevem rotineiramente suplementações vitamínicas e minerais para gestantes. O último trimestre da gestação, freqüentemente, exige aporte de ferro extra, com suplementação. O Instituto de Medicina dos Estados Unidos recomenda que as pessoas com mais de 50 anos de idade utilizem suplementos de B12, pois 30% dessa população se mostra deficiente dessa vitamina. O iodo é adicionado ao sal que consumimos, para que esse mineral chegue a pessoas que moram em regiões distantes do mar. A sua falta causa sérios problemas mentais em crianças (cretinismo), além de dificuldade de produção de hormônio da glândula tireóide. A fortificação das farinhas com ferro e ácido fólico não visa atingir os vegetarianos, mas sim a população onívora. Como você pode notar, mesmo os onívoros estão sujeitos a diversas deficiências nutricionais. O fato que incomoda alguns profissionais de saúde é o fato de que mesmo com uma dieta bem balanceada, uma dieta vegana não supre todos os nutrientes (por causa da B12). Esse incômodo pode ser entendido pela falta de visão sobre o que é saúde, que algumas pessoas podem ter. Lembre-se de que a Organização Mundial de Saúde define a saúde como “o estado de completo bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”.
Alguém que olha para o animal e sente o seu mundo interno (emocional,
mental) abalado, não terá a saúde completa. O suplemento de B12, para
garantir a saúde orgânica em prol dos ideais éticos (seja pelo próprio
corpo, pelo meio-ambiente ou pelos animais) pode ser completamente
justificada. O nosso organismo pode estocar a B12 por muitos anos. Uma pessoa com bom estoque de B12 precisa absorver, diariamente, 1 mcg de vitamina B12 proveniente da dieta para manter os bons níveis dela. Por meio da secreção biliar, 1 a 10 mcg de vitamina B12 são lançados diariamente no intestino e ela pode retornar para o sangue após ser absorvida. Assim, conseguimos “reciclá-la” evitando a sua perda intestinal por meio desse ciclo que chamamos êntero-hepático (do intestino para o fígado). No entanto, mesmo com esse ciclo preservado, pequenas perdas de B12 para as fezes ocorrem e os seus níveis sanguíneos são reduzidos. Assim, quem não ingere B12, vai perdendo gradativamente a que tem no organismo.
Pessoas que são vegetarianas há muito tempo podem
não ter sintomas de deficiência, mas apresentam níveis baixos dela. Com
isso, compostos que dependem da B12 para serem metabolizados ficam
alterados e isso é nocivo para a saúde. Estar assintomático não
significa estar saudável.
Não é prudente aguardar os sintomas aparecerem para
verificar o que ocorre. Um bom profissional de saúde está apto a fazer
uma avaliação para verificar como está a sua saúde. Claro que não! Essa idéia surge pelo fato de podermos estocar a B12 e o estoque ser possível para o seu uso por 3 a 5 anos. Preste bem atenção: a matemática nem sempre serve para as ciências biológicas. E nesse caso, definitivamente, não serve! O cálculo do estoque que dura 5 anos é teórico. Além disso ele parte do princípio que o estoque está cheio no momento que a pessoa se torna vegetariana. Ledo engano! Tenho pacientes, vegetarianos há 1 mês, com deficiência de B12. Claramente o problema não é devido à dieta vegetariana, pois o tempo de prática dela não seria suficiente para isso. Há fatores orgânicos e dietéticos que influenciam o estoque de B12. Outro ponto de atenção se faz ao indivíduo que é ovolactovegetariano ou lactovegetariano e se torna vegano. Essa pessoa, quase que certamente, já tem níveis mais baixos de B12 ao se tornar vegana. Quanto tempo vai durar o estoque dela? Não dá para saber. Portanto, você deve avaliar a B12 desde já. Todo profissional que recebe no consultório alguém que tem e intenção de se tornar, ou que já é vegetariano, deve dosar os níveis de B12 dessa pessoa imediatamente, não importando o tempo de dieta seguida. Todo profissional que acompanha vegetarianos deve solicitar a dosagem de B12 na primeira consulta, independente da pessoa ter sintomas ou do tempo que é vegetariana.
Não falo isso apenas baseado em estudos
publicados, mas sim pela experiência em consultório. Tem muito
vegetariano com baixos níveis de B12!
Não existe diferença entre ciência e espiritualidade.
Ciência é um conjunto de métodos lógicos que
permitem a observação sistemática de fenômenos empíricos visando a sua
compreensão. A idéia de buscar uma explicação satisfatória que
demonstre o funcionamento das leis físicas e divinas não exclui a
rejeição do “sobrenatural”. No entanto, esse “sobrenatural” também tem
regras que devem ser descobertas.
Se alguém diz que consegue materializar a B12 no
seu próprio organismo sem ingeri-la, e após análise verificamos que
realmente isso ocorre é porque há leis para isso. Essa pessoa tem algo
diferente que permite isso. A ciência simplesmente vai investigar, sem
preconceitos, como isso pode ocorrer.
Um pesquisador que utiliza animais em
experimentos está tentando fazer ciência, da mesma forma que outro que
repudia essa atitude. Ambos estão atrás de respostas, mas com conceitos
éticos completamente divergentes. Não confunda: ciência busca
explicações. O ser humano é que escolhe como fazer isso: de forma ética
ou não.
Podemos aplicar a ciência em todas áreas da
nossa vida, desde os relacionamentos humanos, nas áreas mais técnicas
da biologia e das ciências exatas, assim como nas religiões e
filosofias espiritualistas.
A ciência e a espiritualidade devem chegar ao
mesmo consenso. Quando isso não ocorre é porque uma delas, ou ambas,
ainda não conseguiu decifrar as leis de funcionamento da vida. Cuidado com o ser humano: gostamos de ouvir aquilo que gostamos de ouvir. Sem imparcialidade não há condições de um julgamento adequado. Quem defende um ponto de vista de forma parcial não pode ter uma visão ética dos seus propósitos.
Não são as leis divinas que têm que se adaptar
às nossas convicções, mas sim as nossas impressões se ajustarem às leis
divinas após exaustivas verificações com olhar não tendencioso.
Seja neutro nas suas avaliações e confira os resultados com a prática. |